A Marginalização Estatal das Torcidas Organizadas como Expressão de Movimento Social
Este artigo analisa a marginalização estatal das torcidas organizadas de futebol no Brasil enquanto manifestações legítimas de movimentos sociais. A partir de pesquisa bibliográfica e análise de casos concretos, argumenta-se que o processo de estigmatização dessas entidades não se sustenta apenas na narrativa da violência, mas está diretamente vinculado a estratégias de higienização social, controle de espaços públicos e mercantilização do futebol. Explora-se o papel do Estado na seletiva criminalização de determinadas expressões populares, revelando uma prática política de exclusão e repressão dos sujeitos oriundos das periferias urbanas.
Palavras-chave: Torcidas organizadas; Movimentos sociais; Marginalização; Estado; Controle social; Mercantilização do futebol.
1. Introdução:
As torcidas organizadas de futebol, frequentemente associadas a comportamentos violentos, representam expressões complexas de organização popular, com funções que vão muito além do apoio ao clube. Presentes em diversos territórios urbanos, esses coletivos atuam na formação identitária de jovens, promovem ações sociais e constroem formas de resistência simbólica à exclusão social.
Ao serem analisadas sob a perspectiva dos movimentos sociais, percebese que a repressão que sofrem é menos uma resposta à violência eventual e mais uma tentativa de silenciamento de formas autônomas de organização popular. Este artigo busca investigar as razões estruturais dessa marginalização, entendendo-a como parte de uma estratégia política mais ampla.
2. Movimentos Sociais e a Lógica de Repressão:
Movimentos sociais são agrupamentos coletivos que se organizam para a defesa de direitos, resistência à opressão e promoção de mudanças sociais. No Brasil, são fundamentais para a conquista de garantias constitucionais, como foi o caso dos movimentos sindicalistas, estudantis e de base eclesial. A teoria sociológica, desde Marx até Gohn, reconhece o potencial transformador dessas ações coletivas.
Contudo, o Estado não é neutro nesse processo. Ao contrário, adota uma postura seletiva, legitimando alguns movimentos e reprimindo outros. A criminalização das torcidas organizadas se insere nesse quadro. Identificadas como formadas por jovens, brancos, negros e pardos, em sua maioria, moradores de periferias, passam a ser rotuladas como perigosas, tornando-se alvo de legislações punitivas, operações policiais abusivas e campanhas midiáticas estigmatizantes.
3. As Torcidas Organizadas como Movimentos Sociais:
As torcidas organizadas possuem identidade coletiva, estrutura hierárquica, estatutos e práticas de solidariedade, o que as insere no conceito de movimentos sociais. Além de sua atuação nos estádios, muitas desenvolvem atividades comunitárias, campanhas solidárias e se articulam em pautas como o combate ao racismo e a defesa da democratização dos clubes.
Apesar disso, essas organizações são constantemente impedidas de exercer seus direitos de livre associação, manifestação e expressão cultural. A marginalização não ocorre por seus atos, mas por sua existência enquanto forma de sociabilidade periférica e contra-hegemônica.
4. A Marginalização Como Política de Estado:
A marginalização das torcidas organizadas é operada de forma sistemática: por meio de legislações restritivas (como a Lei Geral do Esporte), de decisões judiciais que suspendem suas atividades, da proibição de uso de bandeiras, instrumentos e faixas, além da constante criminalização coletiva por atos individuais.
Essa repressão é facilitada pela ausência de representatividade política formal desses grupos e pela formação de uma opinião pública negativa, construída por setores da mídia. Além disso, atende a interesses econômicos relacionados à transformação dos estádios em espaços elitizados e no torcedor em consumidor, excludente por natureza.
A mercantilização do futebol — incentivada por conglomerados privados, dirigentes e agentes financeiros — transformou a paixão popular em produto. Sem qualquer investimento em educação da paixão torcedora, identidade de clube, formação cidadã, os estádios tornaram-se apenas vitrines comerciais. Isso provoca um vazio simbólico: o torcedor, esvaziado de sua dimensão afetiva e comunitária, é reduzido a mero consumidor, frequentemente frustrado, e sem espaços de expressão.
É nesse vácuo que surge a violência: não como expressão direta do pertencimento à torcida, mas como reflexo do abandono estatal da dimensão educativa, cultural e social do futebol. A paixão não educada, reprimida e mercantilizada, converge para comportamentos extremos. A ausência de políticas públicas de cultura esportiva e de promoção do torcer pacífico é parte do problema, não da solução.
A teoria do direito penal do inimigo, de Jakobs, explica como o Estado justifica tratamento excepcional a esses grupos, desconsiderando direitos e garantias fundamentais. As torcidas, nesse contexto, são tratadas como "inimigos internos", cuja existência deve ser neutralizada.
5. Considerações Finais:
Reconhecer as torcidas organizadas como movimentos sociais é essencial para combater sua marginalização. Não se trata de negar episódios de violência, mas de compreender suas causas estruturais e resistir à redução do fenômeno à criminalidade. A mercantilização sem educação transforma a paixão em combustível para o conflito.
A exclusão sistemática das torcidas revela um projeto de domínio dos espaços públicos e simbólicos, onde o Estado atua para desmobilizar formas autônomas de organização popular. A luta pela sobrevivência das torcidas organizadas é também a luta pela efetivação de um Estado verdadeiramente democrático.
Referências:
GOHN, Maria da Glória. Teorias dos movimentos sociais. São Paulo: Loyola, 1997.
ATAÍDES, Maria Clara; SILVA, Thiago Henrique. Criminalização dos movimentos sociais. Revista Transgressões, 2019.
COSTA, Flávio F. G.; NASCIMENTO, Bruno C. de L. Torcidas organizadas e elitização dos estádios. Revista Transgressões, 2015.
JAKOBS, Günther; MELIÁ, Manuel Cancio. Direito penal do inimigo. Madrid: Civitas, 2007.
LOPES, Rodrigo; BUARQUE, Diogo. A elitização dos estádios. Revista Ludens, 2020.
MELO, Victor Andrade de. Torcidas organizadas e política. Revista Espaço Plural, 2018.
PIMENTA, Eduardo. Democracia corintiana e a luta por direitos. São Paulo: Cortez, 2000.


